Conversando com a vovó: atividades deliciosas

Por ser Terapeuta Ocupacional estudei as atividades: o que são, quais são, como são realizadas e o que proporcionam. Dizemos que as atividades não são terapêuticas por si só, quer dizer, fazer crochê não é uma terapia, mas pode trazer benefícios para quem o faz, isto é, pode ter efeito terapêutico para quem gosta de crochetar, do tipo relaxar, acalmar, tirar a tensão e passar o tempo. No entanto para quem tem dificuldades com agulhas tentar fazer crochê pode ser exatamente o contrário: trazer irritação, nervosismo e sentimento de menos valia. Ou seja, a mesma atividade desperta sentimentos distintos nas pessoas.

Até aqui nenhuma novidade, certo?

Bem, esse post vem para estimular a busca por atividades que nos são prazerosas, que podem ter fins terapêuticos. Mas antes vamos relembrar como isso acontecia há 30 ou 40 anos.

Minhas avós não trabalhavam fora de casa. Elas eram excelentes donas de casa e foram criadas exatamente para isso: cuidar da família que formariam. Na escola tinha uma disciplina que tratava de ensinar trabalhos manuais essencialmente femininos e como conseqüência eram ótimas bordadeiras, “tricotadeiras” e cozinheiras. Os valores da época compreendiam as relações familiares, qualidade, constância e outros; assim, minhas avós se tornaram o que lhes eram esperado – e particularmente, para mim isso foi ótimo já que tenho muito interesse nas atividades e pude contar com elas para herdar tudo o que sabiam.

Os valores atuais, por outro lado, são muito diferentes dos daquela época, ocasionando um conflito geracional, ou seja, a primazia do belo, da quantidade, do instantâneo se choca com o que era importante para a geração das minhas avós. Dessa forma, as atividades comuns e desejáveis de serem realizadas dos anos 50 deixam de existir no século XXI e dão lugar a outras, como assistir televisão, ir ao shopping e almoçar no Mc Donald’s.

Meu convite hoje é resgatar as atividades da vovó. Se for na Terapia, fazendo junto com a Terapeuta Ocupacional melhor ainda; senão vale a pena sentar perto da vovó e pedir para ela contar como era a juventude dela, o que ela aprendia na escola e com a mãe e a avó dela e ver o que disso tudo tem a ver com você. Depois disso é só experimentar algumas dessas atividades. Pode ser assar uns biscoitos, ler um bom livro, fazer ponto cruz ou refazer sua arvore genealógica (por que não?). De repente você descobre algum potencial terapêutico nessas atividades para você e perceberá delícias encobertas. Que tal?

cordeiro.lu@ig.com.br

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Condição de Trabalho: uma necessidade de saúde


Recentemente mudei de emprego. Não que eu não gostasse do antigo; pelo contrário. Gostava muito da agitação e de ter muitas tarefas diferentes, mas especialmente gostava do contato com os pacientes e com a equipe, por mais difícil que seja nos relacionarmos com tantas pessoas diferentes. O que me fez mudar de emprego, mesmo que o atual seja ainda mais distante de casa, foram as condições de trabalho oferecidas.
Especialmente desde quando conheci a Saúde Coletiva tenho me atentado mais às necessidades de saúde – minhas e dos outros. Entendo que além de condições ideais de moradia, transporte, alimentação e lazer, para ter nossas necessidades de saúde atendidas é muito importante termos boas condições de trabalho.
Nos dias de hoje principalmente a cidade de São Paulo está com o sistema de saúde (SUS) privatizado. Trata-se de organizações sem fins lucrativos que administram as unidades de saúde de forma geral com o dinheiro público: hospitais, ambulatórios, UBS (antigo Posto de Saúde), AMA, Caps. Algumas unidades têm apenas os recursos humanos, isto é, os trabalhadores organizados pelas empresas e outras são totalmente administradas por estas. Há ainda as unidades da prefeitura, que são raridades na cidade e recebem cada vez menos recursos para manter o funcionamento, com funcionários fazendo serviços diferentes daqueles de suas especialidades e sem receber nenhum tipo de investimento de qualquer ordem.
Os trabalhadores dessas organizações, então, são contratados sob regime CLT (“carteira assinada”) e cobrados de produção diariamente, sob o risco de serem demitidos caso não cumpram as metas. O resultado disso são atendimentos rápidos e com pouca qualidade à população, profissionais não necessariamente qualificados ou especialistas para exercer as diferentes funções, adoecimentos freqüentes dos trabalhadores, alta rotatividade dos profissionais nas unidades de serviço, instabilidade profissional e salários baixos. Isto é, em geral, nenhum profissional da saúde pública da cidade de São Paulo atualmente tem boas condições de trabalho, apesar de serem CLTistas. Inclusive eu.
No entanto, dentre as várias organizações há condições melhores e piores de trabalho. No meu caso, recebi uma proposta de uma organização que aparentemente tinha melhores condições (soube disso através de colegas), então mudei de trabalho e não me arrependi. Antes eu estava sempre com o trabalho atrasado por minha unidade abranger um território de 550.000 pessoas, tinha muitas atividades semanais e responsabilidades que não condiziam com minha categoria profissional. Hoje tenho um tempo maior para desenvolver meu trabalho, o território tem no máximo metade de habitantes do antigo emprego, meu horário é fixo, porém quando há imprevistos é possível negociar com minha chefia, que está sempre próxima dos trabalhadores. Entendo que tenho melhores condições de trabalho e sinto que ainda tenho energia para continuar meu dia após minhas 6 horas de trabalho na organização.
Por mais difícil que essa mudança tenha sido – do dia para a noite, sem poder despedir-me dos pacientes e da equipe de trabalho, ela contribuiu para melhorar minha qualidade de vida, exatamente como é descrito pela Saúde Coletiva.
Uma salva de palmas para o Sr. Karl Marx!

Marmitas: armas para a transformação?

                                                                                             

Tenho um amigo engenheiro e skatista que recentemente têm preparado e distribuído marmitas na rua aos domingos. Trata-se de uma ação individual, mas aos pouco ele está arrecadando doações e outras pessoas têm participado desse ato. 

Expliquei a ele que essa é uma das ações que chamamos de Redução de Danos, isso é, reduzir os danos dos usuários de drogas nas ruas, que passam dias sem alimentar-se ou beber água, muitas vezes em condições precárias.

Tenho também um paciente usuário de múltiplas drogas morador de rua. Ele está há alguns dias sem fazer uso compulsivo de drogas e está abrigado em uma casa da acolhida. Agora já tem uma troca de roupa e fez a barba. Hoje ele me disse que é skatista assim como meu amigo. Me contou que por duas vezes teve patrocínio para andar de skate, mas acabou perdendo isso da mesma forma que perdeu familiares, casa e dignidade.

Comentei com meu amigo sobre meu paciente. Prontamente ele me convidou a salvar esse paciente, principalmente por se tratar de um “cara legal” e por estar procurando emprego novamente.

Fiquei pensando na possibilidade que eu tinha de salvar meu paciente. Na verdade pensei na impossibilidade disso acontecer. Por mais que eu seja uma trabalhadora da saúde e tenha recebido formação para tratar de pessoas estou certa de que não sou capaz de salvar ninguém. Explico.

 No Capitalismo a ordem é o consumo. A única possibilidade de “salvar” meu paciente seria fazê-lo ter um emprego, uma casa e uma família, já que é esse o padrão aceito e que se busca atualmente – qualquer desvio não é tolerado socialmente. Agora, qual é o produto mais provável de uma pessoa negra de 40 anos, moradora de rua e sem família consumir? Acertou se você respondeu DROGAS.

Frustrado com a sua impossibilidade de criar e sustentar uma família e um lar, o sujeito consome drogas para alívio de sua angústia e mal estar.

No Capitalismo se não houver poder de compra não há pertencimento. O sujeito estará fadado à marginalidade.

Retornando ao paciente. Acredito na possibilidade dele voltar ao mercado de trabalho – conseguirá um subemprego e um subsalário, de voltar a ver alguns membros de sua família e de não mais morar na rua, mas não poderei salva-lo. Nem eu nem meu amigo distribuidor de marmitas, pois estamos todos condenados e nossa única carta de alforria será a possibilidade de nos organizarmos e ir contra a estrutura dominante.

Acho bacana a atitude do meu amigo skatista, mas ações individuais de redução de danos ou quaisquer outras não trarão transformação social porque somos formiguinhas nesse mundão burguês-capitalista.

Meu papel: fazer a crítica e sensibilizar para a luta. E o seu?           

Internação Compulsória: a melhor solução para diabéticos, obesos e dependentes químicos?

 

O assunto Drogas está na moda. Semanalmente há pelo menos um artigo novo ou um evento para discutir a questão, sem falar nos filmes e programas de televisão. Dentre todos os assuntos discutidos a respeito das drogas está a internação compulsória para os usuários que se concentram em alguns locais da cidade, as chamadas Cracolândias.

Essa iniciativa de “limpar a cidade” está sendo trazida do Rio de Janeiro para São Paulo, a qual precisa ser finalizada até 2014, ano da Copa no Brasil. A internação compulsória trata-se de levar os usuários de drogas para unidades de saúde sem o desejo ou consentimento destes. Entende-se que o usuário é um doente que não tem condições de responder por suas ações, muito menos condições de produzir qualquer coisa, logo deve ser hospitalizado para tratamento.

Na verdade o usuário “enfeia” a cidade, mostra sua fragilidade e suas faltas, por isso precisa ser removido. Então decidiu-se que o aprisionamento dessas pessoas em ambiente hospitalar poderia ser agradável para a burguesia, garantindo a segurança dessa classe.

A reflexão de que usar drogas não é sinônimo de doença nem de falta de caráter e que o aprisionamento dessas pessoas é um retrocesso nas conquistas sócio-políticas da Saúde Mental não foi feita. Desde a década de 70 luta-se pela desospitalização dos portadores de doença mental que antes habitavam enormes manicômios que mais se assemelhavam a depósitos de todo tipo de gente que não se adequam às necessidades do capitalismo. A luta antimanicomial vem ganhando força como já escrevi aqui, mas parece que para alguns a internação ainda é uma solução para os que são julgados moralmente.

Penso que essa gente desorientada imagina que o acometimento de uma doença mental pouco se controla, no entanto fazer uso de drogas é uma doença que se instala a partir de uma escolha pessoal e errada, logo tais pessoas merecem o aprisionamento, apesar de entitularem essa iniciativa de tratamento.

Imaginem só se a prefeitura decidisse internar todos os diabéticos rebeldes e os obesos que optam por ser obesos. Essas também são doenças como a dependência química; então por que não institucionalizar os portadores desses acometimentos se esses também correm riscos diariamente? Não há respostas.

Não sou a favor nem torço para que se instalem cada vez mais Cracolândias na cidade, mas acredito que prender as pessoas não é o caminho. Compreendo as drogas como uma mercadoria tal qual todas as outras e o consumo prejudicial de drogas como uma consequência da estrutura social atual.

A sugestão aqui para termos maior qualidade de vida é a criação de novas possibilidades para a sociedade, de mais condições de trabalho e lazer. Para isso é preciso nos organizarmos e ter crítica de tudo a que somos submetidos e culpabilizados individualmente.

   cordeiro.lu@ig.com.br

Encontre sua turma

Sou graduada em Terapia Ocupacional. Minha profissão é linda, acredito muito no (bom) trabalho que minha classe desenvolve e, ao contrário de algumas pessoas, não acredito que a profissão “não tem futuro”. Não nos falta potencial para atendermos populações diversas, ocupar cargos importantes, sermos criativas e muitas outras possibilidades.

Mas, temos um problema. Somos apenas por volta de 13 mil TOs, como se diz, e somos totalmente desorganizados. Estamos acostumados com o fato de não sermos reconhecidos, ficar com o que resta, termos procedimentos próprios “emprestados” por outras classes e sermos pagos com salários pra lá de injustos.

Talvez esse seja o MEU problema. Não concordo com essa postura passiva e nada política de meus colegas. Não suporto que nos olhem como “as tias da recreação” ou “as moças prendadas” nem qualquer outra coisa parecida e perceber que nós deixamos isso acontecer todos os dias.

Não temos um Conselho, Sindicato  ou Associação que nos ajude, mas ao mesmo tempo somos nós que ocupamos (ou não) esses lugares. E não temos ocupado; ou pelo menos não como poderíamos.

Cansada da passividade e de realizar ações isoladas e sem encontrar pares, fui buscar minha turma. E encontrei!

Faço parte hoje de um grupo crítico, que vê a saúde como parte de um processo social. Além de apontar as questões que eu sempre me incomodei, propõem outras possibilidades e avançam nas idéias e na ciência. Tudo o que eu desejava encontrar na Terapia Ocupacional encontrei em outra classe, e hoje sinto que pertenço a um grupo e que posso continuar sendo exatamente como sou, “sem pôr nem tirar”. E melhor, sem deixar de ser Terapeuta Ocupacional e sem perder esse olhar específico para o mundo.

Estou contando mais essa história aqui para convidar o leitor a buscar o seu espaço, o seu lugar de pertencimento. Depois de procurar por tanto tempo, sei que me encaixo, que existem pessoas que falam a minha língua e isso é imensamente reconfortante, já que por todos esses anos eu era vista como rebelde, implicante, dona da razão e até arrogante!

Então, o convite é esse: se tem algo que parece não encaixar, como se você não coubesse mais ou nunca houvesse cabido, certamente AINDA não encontrou a coisa ou local certo. Você há de encontrar; não desista. Fazer parte de lago que nos faz sentido vale muito a pena!  

cordeiro.lu@ig.com.br

Viva os encontros

Depois que comecei a escrever no Vida de Qualidade conheci o maravilhoso mundo dos blogs. Procurei no Google muitos temas diferentes e todos têm um blog correspondente. Encontrei dicas ótimas sobre meus assuntos preferidos: decoração, arte, artesanato, culinária, viagens, drogas e até unhas! Esse último se tratava de um blog de uma garota de 17 anos que experimenta esmaltes, compara as cores dos diferentes fabricantes e faz enquetes sobre qual esmalte usar na semana. Como é bom ter 17 anos e ter as unhas como grande preocupação! 

Na tevê assisti um comercial de banda larga que me chamou atenção: era um eremita sentado no alto de uma colina, conectado à internet e conversando com um pássaro (?). Ele achou um absurdo haver pessoas que não tinham acesso à internet e comentava que estas devem se sentir isoladas.

 No último mês abri uma conta no Facebook. Difícil não acessar todos os dias. Recebo informações de pessoas que não encontro há muitos anos e assim acompanho a vida delas e elas a minha. Encontrei até gente do outro lado do mundo que achei que nunca mais veria.

 Fico pensado na fantástica proximidade virtual que é ou que traz a internet. Fiquei muito contente de ver fotos de amigos de anos atrás e saber que estão noivos, com filhos e que têm mais planos. Amei saber que existem blogs sobre unhas e esmaltes e adoro bater papo pelo Skype com amigos que não consigo encontrar por falta de tempo/organização/prioridade. Ao mesmo tempo fico me questionando: quando poderei abraçar algum destes amigos do Facebook? Quando poderei perguntar à garota qual esmalte ela está usando pois nossa pele tem o mesmo tom e provavelmente aquele esmalte ficaria divino em minhas unhas? Ou quando poderei preparar um jantarzinho gostoso e tomar uma taça de vinho com uma amiga íntima e dar boas risadas? Talvez um dia. Não sei quando.

 Saber utilizar os recursos tecnológicos a nosso favor respeitando a nós mesmos e nossas necessidades me parece uma tarefa difícil. Há uma linha muito tênue entre a rede virtual  e a rede social.

 Isso diz da vida contemporânea, a qual é dinâmica, instantânea, quase efêmera, que pode ser maravilhosa, mas também distanciada, sem afetos e perfumes.

 Então quando pensamos na criação de adventos incríveis (ainda me lembro quando ninguém tinha computador em casa e as pesquisas para a escola eram feitas na Barsa e quando escrevia e enviava cartas a meus amigos pelo correio) como o mundo virtual, por exemplo, a crítica se faz necessária para prevenir tamanho distanciamento e garantir a aproximação real. Não é a toa que há uma previsão da depressão ser o mal do século em 30 anos. Viva o mundo real e as experiências do encontros ao vivo!      

cordeiro.lu@ig.com.br

Droga: eu uso e você também

Assista "Alice no País das Maravilhas" com outros olhos. Você enxerga o uso corriqueiro de drogas?Há algum tempo trabalho no campo de álcool e outras drogas. Diariamente ouço histórias parecidas de dependentes químicos, de familiares de dependentes e também de usuários de drogas (não dependentes). Certamente o tema mais freqüente no meu dia a dia é a marginalização dos usuários acompanhada do estigma e do julgamento moral.

O ser humano faz uso de drogas desde sempre. Utilizadas em rituais e comemorações, as drogas foram e são até hoje utilizadas para alterar nosso “estado de espírito” e assim cumprir algum objetivo, seja entrar em contato com divindades, relaxar, divertir-se ou outro qualquer. A não ser em locais e eventos onde há proibição, nossos encontros sociais e rituais são regados a drogas, basta pensar em rituais religiosos, nas festas de aniversário, em datas comemorativas. Em todos esses eventos o álcool está presente e o tabaco também.

Quem vai dizer que essas não são drogas ou que são menos drogas do que a maconha, a cocaína e os calmantes??? Qual é mesmo a diferença entre essas drogas? Ah sim! A maior diferença é que o tabaco tem maior poder de causar dependência que as demais apesar de ser lícito. É aí que aparece a moral!

 Fumar e beber é permitido e em rituais do Santo Daime a Ayuasca também é, mas usar maconha é proibido; é feio; é amoral. Mas quem foi que definiu isso-pode-aquilo-não? Não fui eu nem você. Na Califórnia a maconha é utilizada para fins terapêuticos, prescrita por médico e já há pacientes que se beneficiam dessa droga. Comumente fazemos uso moderado de bebida alcoólica e não somos dependentes ou julgados amorais por isso. Hoje já é comum papos em casa sobre como beber sem tanto prejuízo e os males do cigarro, e na maioria dos casos isso dá certo (11% da população brasileira é alcoolista, o que quer dizer que o resto do povo faz uso de álcool moderadamente).

Precisamos então começar a falar das outras drogas, educar a população utilizando boas estratégias. A política antidrogas, a aterrorização e amedrontamento do tipo: “Droga Mata” funciona pouco. Já conversar, acompanhar e orientar o uso de drogas pode ser mais eficaz. Por mais que se tente acabar com o tráfico (tentam mesmo?) e com a produção de drogas, as drogas sempre existirão, o álcool mostra isso claramente. Então cabe a nós nos organizarmos e pensarmos o que queremos para nossa saúde, de qual concepção de saúde estamos partindo para chegar na temática álcool e outras drogas. Tenho feito esse caminho no meu trabalho, em minha pesquisa e pessoalmente. Quer vir comigo?

cordeiro.lu@ig.com.br

Aproveitando a promoção de uma compra coletiva na internet fui a um salão de cabeleireiro bem chique em São Paulo. Não costumo investir muito no visual tampouco acumular cupons das promoções dos sites, mas juntei a necessidade de cortar os cabelos à pechincha daquele salão e me esbaldei. O cabeleireiro e eu rimos muito da minha falta de disciplina e cuidado com minhas madeixas e ele logo foi tratando de me indicar mil produtos, formas de secar, tempo correto de poda, etc. Enquanto ele falava, fui elaborando uma lista vencida enorme de “TENHO QUE”. Fui invadida pelas obrigações que nos são impostas, independente se temos vontade ou tempo de nos dedicar a elas. Fiquei imaginando de que forma eu poderia dar conta de tudo o que precisa (ou precisaria, já que não consigo realizá-las) ser feito. Mais tarde, resolvi elaborar outra lista, uma lista pro futur, das coisas que “ADORARIA” fazer. Essa não foi uma lista com apenas pernas para o ar e água de coco numa rede sob a sombra. Amo meu trabalho, meus estudos e até mesmo cozinhar e cuidar da minha casa, mas certamente essas tarefas estariam na lista “ADORARIA” se as condições fossem diferentes das que estão impostas hoje: trânsito, trabalhar mais do que dormir e lazer juntos, meia hora no máximo para ir ao supermercado e até mesmo esperar pontas duplas para ir ao salão de cabeleireiro. Essa situação me fez refletir que meu cabelo brilha mais e é mais sedoso quando está molhado e salgado pela água do mar, despenteado e espalhado na grama ou preso em um rabo-de-cavalo enquanto preparo um jantarzinho bem gostoso. Isso porque meu cabelo tem um contexto importante: meu bem estar. Independentemente se estou usando o melhor produto ou se sequei da forma correta, certamente meus cabelos, meu corpo e minha mente estarão harmonizados e terei bom humor, bem estar e qualidade de vida se estiver realizando tarefas da lista “ADORARIA”. Para isso tenho me planejado melhor e distribuido minhas atividades do dia-a-dia, conciliando as tarefas da lista “TENHO QUE” com as da lista “ADORARIA”. Tarefas simples como ler um livro antes de dormir, falar com uma amiga ao telefone, cuidar de uma planta ou tomar sol aos domingos pela manhã me enchem de alegria e me dão energia para continuar vivendo, já que não é possível viver sem responsabilidades pessoais, sociais, familiares com o meio ambiente, etc. Felizmente gosto de muitas atividades e preciso de pouco para me divertir, mas nem todo mundo sabe do que gosta, o que lhe faz bem, o que lhe alimenta por dentro. Às vezes os gostos ficam esquecidos, guardados no baú, renegados, sendo que basta um resgate destes para lembranças e boas sensações virem à tona. Outras vezes a rotina nos engole parecendo que não há espaço interno e externo para frugalidades. No entanto certamente é possível encontrar o seu sagrado, já que todos temos um. O meu não é ter cabelos bem tratados, e sim estar em harmonia com minhas listas, fazendo com que meus cabelos pareçam bonitos, como descrevi. Meu convite ao leitor é esse: a busca do seu sagrado. Que tal?

cordeiro.lu@ig.com.br

Mente e Corpo: buscando uma ferramenta

Outro dia fui sozinha a uma lanchonete. Sentei-me no balcão de frente para as pessoas que recebiam os pedidos dos clientes e preparavam os lanches. Enquanto devorava meu sanduíche passei a perceber as ações dos trabalhadores.

Aquela é uma lanchonete bastante famosa que existe há décadas então deve ser por isso que tudo lá é tão perfeito. Tudo tem seu devido lugar, os trabalhadores executam suas funções com agilidade e precisão e sabem exatamente o momento de trocar de posto de trabalho de acordo com a demanda exigida.

Mas o que mesmo isso tem a ver com qualidade de vida?

Bom, naquele mesmo dia, me perguntei por que a perfeição e sincronia que aconteciam naquela lanchonete não eram, na maioria das vezes, repetidas por nossos corpos se esses são “máquinas” projetadas e executadas para exímio funcionamento. É muito comum ouvir que Maria tem dor aqui, João não consegue fazer tal coisa e Manoel está sempre cansado e não consegue dormir.  

Certamente há o fator ambiental, isto é, a exigência atual, a imposição da produtividade e do capital, que faz com que nos desdobremos em pelo menos dois para dar conta de todas as demandas contemporâneas.

No entanto, fico pensando nas questões emocionais e relacionais que permeiam nosso cotidiano. Não podemos negar que isso atravessa nossas ações e mais, nosso funcionamento. Não raro alguém tem muita dor no estômago depois de um episódio de raiva com o chefe ou com a mãe, ou pega um resfriado assim que fica sabendo que o namorado vai viajar ou mesmo quando ele volta de viagem.

Essas são as somatizações, isto é, manifestações no corpo de algum conflito interno (psíquico), na forma de uma doença ou um sintoma, que fazem parte de nossa vida.

Agora, voltando para a lanchonete, penso que é por isso que não podemos comparar o funcionamento do estabelecimento com o do corpo humano, já que somos seres biopsicossociais, e temos questões para além da saúde física.

A boa notícia é que temos potentes ferramentas para melhorar o desempenho da mente e do corpo. É claro que cada um vai encontrar a sua própria, mas minha sugestão são as terapias, em especial a psicoterapia e a terapia ocupacional. Essas são ferramentas que nos aproximam de nós mesmos e nos permitem “nos saber mais”, e assim ter capacidade de compreender e até modificar as somatizações e sintomas de desorganização, por exemplo.

Essa é uma boa forma de iniciar o processo de nos fazer funcionar  como a lanchonete e nos sentirmos satisfeitos com os funcionamentos da mente e do corpo.

O desfio está lançado! Busque a sua própria ferramenta!

cordeiro.lu@ig.com.br

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